Bem Vindos!

É uma enorme satisfação podermos estar compartilhando estas informações, acreditamos ser de importante ajuda comentar sobre este que foi um dos ícones do estudo da Teologia do Novo Testamento.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

CRISTO E O TEMPO - PARTE I


CULMANN, Oscar. A continuidade da linha da salvação. In ______. Cristo e o Tempo: Tempo e história no cristianismo primitivo. São Paulo: Custom, 2003. p. 75-160.

Na primeira parte da obra, Culmann realiza uma apologia sobre a continuidade da linha do tempo concernente a salvação, estabelecendo uma terminologia relativa ao tempo no NT. Utilizando-se de dois termos gregos: kairos que designa no tempo um momento determinado por seu conteúdo, isto é, uma ocasião propícia para ocorrer um evento; e aiôns que designa uma duração, um espaço no tempo, limitado ou não.

Num segundo momento, o autor, estabelece que os cristãos primitivos, assim como o judaísmo bíblico concebiam simbolicamente o tempo como uma linha ascendente, enquanto que no pensamento grego o tempo não era concebido como uma linha ascendente, com começo e um fim, mas sim como um círculo eterno onde todas as coisas tornam acontecer. Estas concepções vão influenciar a maneira como os cristãos primitivos e o pensamento grego da época do NT tinham acerca da história da salvação.

Denominar o tempo e entendê-lo de que forma ele age, influencia também na concepção de eternidade. Destarte, Culmann estabelece na sua obra outra dicotomia entre o pensamento grego e a concepção cristã primitiva sobre a eternidade. Pois para o pensamento platônico a eternidade não seria um prolongamento do tempo e sim a ausência dele, enquanto que no cristianismo primitivo Deus não poderia agir fora do tempo, pois Ele é eterno, sendo aquele que era, que é e que será, sendo a eternidade uma sucessão infinita de aiôns, tanto, que o autor estabelece três aiôns: o primeiro antes da criação que já estava preparada no plano divino, um segundo que corresponderia ao presente que se situa entre a criação e o fim do mundo, e um terceiro no qual ocorreria os eventos finais.

Culmann quando definiu eternidade, observou a necessidade de determinar a soberania de Deus sobre o tempo, pois para entender a eternidade como infinita dentro da linha do tempo é necessário que tenhamos o entendimento que Deus utiliza parâmetros para medir o tempo diferente dos nossos. Pois, somente o divino pode conceber, visualizar e dominar a linha infinita do tempo, por ser Deus a própria linha. Ele seria o eterno o “rei do aiôns”. Esta soberania de Deus sobre a linha do tempo é manifestada por ocasião do desígnio divino da predestinação e da preexistência, e também na história de Cristo.

Trabalhando na concepção do tempo no que tange a história da salvação, Culmann traz uma nova divisão do tempo a partir do centro da história da salvação que seria o advento do Messias. Para o autor, na história da salvação o que já está cumprido, isto é, a vinda de Cristo, constitui a firme garantia do que se cumprirá. Para o autor a vinda de Cristo, não pode ser considerada um “tempo novo” que é criado, e sim uma nova divisão do tempo.

Sabedor que os autores dos primeiros escritos do NT, estavam desprovidos do sentido histórico e, por conseguinte, toda distinção entre história e mito lhes foram a priori estranha. Culmann crítica os teólogos que suprimem a relação de união entre história e mito, por destruir a própria linha do tempo. Pois para o autor constatar que um mito não é “histórico” não implica que o evento que ele circunscreve não tenha seu lugar no tempo, e que o essencial é entender que nos escritos cristãos primitivos, as próprias partes históricas não estão presentes como história, mas como “revelação profética sobre a história”

O autor alega que a história da salvação, também é a história do Cristo, pois o advento do Messias deve ser colocado como ponto central da história da salvação, ou seja, a linha do tempo da história da salvação foi traçada a partir do evento central, infinita antes e depois deste evento. Esta representação temporal nos permite falar de Cristo em qualquer momento da linha do tempo, pois não se pode falar de Deus fazendo abstração do Cristo. Para isto o autor traz um pouco de sua cristologia ao compreender Cristo como mediador da criação, como o servo sofredor de Iahvé cumprindo a eleição de Israel, como Kyrios que reina atualmente e como o Filho do Homem que completa toda a história sendo mediador da nova criação.

O autor conclui a primeira parte da obra determinando um movimento duplo temporal da linha salvação, este movimento duplo abrangeria dois princípios teológicos: a eleição e a substituição. Ou seja, sendo Israel o povo eleito de Deus não conseguiu cumprir em sua totalidade a missão que lhe fora atribuída, havendo então a necessidade do surgimento de um “remanecente” que substitui o povo, do qual falara os profetas. Destarte, a história da salvação, em sua totalidade compreenderia dois movimentos: um corresponderia à passagem da pluralidade ao Único, que fora a Antiga Aliança, e outro que seria a passagem do Único à pluralidade, que é a Nova Aliança.

A Cristologia segundo Oscar Cullmann - Fichamento

ALVES, Carlos Eduardo Cavalcanti. A cristologia segundo Oscar Cullmann. (Carlos Eduardo Cavalcanti Alves é bacharel em Admnistração e pós-graduado em Teologia pela FTBSP, sendo pastor da 1ª Igreja Batista em Mogi Mirim-SP)

O autor na introdução de seu ensaio afirma que a proposta cullmianna para a investigação cristológica se utiliza de um método denominado pelo próprio Cullmann de método histórico-filológico. Carlos Eduardo coloca o método cullmianna como uma possível síntese entre a dogmática e a crítica histórica, pois Cullmann analisa filologicamente o texto, interpretando-o e utilizando-o como fundamento para a compreensão do Cristo, sem a utilização de esquemas filosófico-teológicos.

Relatando sobre a humanidade de Cristo, o autor alega que Cullmann vê Jesus como um judeu, que por intermédio de sua vida, inaugurou uma religião diferente do judaísmo, iniciando uma cosmologia diferente da encontrada no helenismo. Cullmann também afirma que a dogmática, predominantemente metafísica, deveria ceder espaço a perspectiva do evento Cristo como parte integrante da história da salvação. Outra afirmação cullmianna acerca da humanidade de Jesus é que na crucificação e ressurreição de Jesus, o Cristo da fé e o Jesus histórico provam ser um único e mesmo Senhor Jesus Cristo.

Argumentando sobre o ministério de Jesus Cristo, Carlos Eduardo enfatiza que Oscar Cullmann é de opinião de que o título de Servo Sofredor de Deus, atribuído a Jesus Cristo, é central para a cristologia do Novo Testamento. Pois por intermédio deste título é que é possível trabalhar o conceito de substituição, o qual há uma implicação natural do pensamento judaico de representatividade e de solidariedade corporativa. Outro aspecto abordado por Cullmann seria a questão de que o sacrifico de Cristo fora realizado uma vez por todas, não havendo a necessidade de repetição, tendo seu alcance ilimitado.



O autor na segunda parte de seu ensaio discursa a respeito dos vários títulos cristológicos conforme a concepção de Cullmann. O primeiro título abordado seria o de Messias, que certamente é o mais mencionado, e Cullmann destaca este título como uma promessa de Deus a Davi, tendo em vista que Messias é traduzido no grego pelo particípio “ungido” que se referia a homens escolhidos por Deus para determinada missão. Neste caso a promessa davídica foi à perpetuidade de seu reinado, cumprida na esperança escatológica de Cristo. Aliás, esta esperança escatológica é traduzida por outro título cristológico que é o de “Filho do Homem” que faz referência, de acordo com a crença judaica, a um homem celestial presente em descrições da parusia; quandoeste homem do céu será o executor do juízo divino sobre a terra.

Entretanto, a fé cristã não pode ser resumida a atuação de Jesus no passado, ou a nutrição de uma expectativa da vinda de um reino escatológico, por isso, Cullmann vê na denominação cristológica de Kyrios, que significa “Senhor”, uma atuação atual de Cristo sobre a comunidade cristã, como cabeça e Senhor desta comunidade. Destarte, a adoção do termo Kyrios pelas comunidades cristãs primitivas seria uma reação aos “senhores”, ou seja, as divindades pagãs às quais era dispensado este mesmo tratamento. Pois os cristãos reconheciam somente um só “Senhor”, denominando a Cristo como Kyrios, cuja revelação desmistificava todos os outros supostos kyrioi.


Outro título cristólogico argumentado é o de Salvador, que segundo conceito helênico de “Sóter” se aplicava aos deuses que intervinham na história sobre as autoridades humanas quando da libertação de determinado povo da opressão e dos males sofridos. Contudo, Cullmann atribui o termo “Sóter” como um mero complemento de Kyrios, sendo Cristo o nosso Sóter, por ter Ele nos salvado do pecado.

Por fim, o autor finaliza o seu ensaio abordando o título de “Filho de Deus” que é atribuído a Jesus. Cullmann afirma que a influência helênica acerca do conceito de “Filho de Deus” é limitada. Pois o uso deste termo era vasto, aplicando-se a monarcas, traumaturgos, pessoas que de alguma forma manifestavam poderes sobrenaturais, e por estar presente como expressão comum em obras antigas. Assim sendo, Cullmann conclui é que Jesus designou-se como “Filho de Deus”, para demonstrar sua consciência de intimidade ímpar com o Deus Pai, zelando para que esta intimidade fosse separada de qualquer associação a uma realeza messiânica. Isto é, para Cullmann Jesus é “Deus enquanto se revela”, pois somente há sentido em se falar da divindade de Jesus quando associada à história da salvação, porque foi desta forma que Deus se revelara nas Escrituras, cuja concepção de Deus não é esgotada.

PERSPECTIVAS TEOLÓGICAS

CONCEITOS TEOLÓGICOS

Heilsgeschichte – A escola teológica de Cullmann

Parte do mundo teológico do século vinte girou em torno de uma palavra alemã, Heilsgeschichte, que pode ser traduzida para a língua portuguesa como história da salvação. A palavra ganhou um significado mais pleno dentro da teologia ocidental contemporânea após os escritos de Cullmann. Ainda que o significado e origem de heilsgeschichte remonta aos teólogos alemães do século dezenove, como J.C.K. Von Hofmann e Adolf Schlater, o Dr. Cullmann é a pessoa que popularizou o termo no século vinte.

CRÍTICAS E INFLUÊNCIAS DE TEÓLOGOS CONTEMPORÂNEOS

Karl Barth e Rudolf Bultmann

De Barth, a Heilsgeschichte de Cullmann foi influenciada pela compreensão cristocêntrica do barthianismo e pelo conceito definitivo do papel da fé na revelação divina.

De Bultmann, Cullmann tomou os métodos exegéticos da crítica formal para aplicá-lo em sua reconstrução da história do Novo Testamento.

Devido a essa relação com os escritos de Barth e Bultmann, é sábio referir-se as idéias de Oscar Cullmann como sendo neo-ortodoxas em sua orientação.

Apesar de manter algumas concepções teológicas de Barth e Bultmann, Cullmann não temeu em desassociar-se desses teólogos, afirmando que os dois assimilaram noções filosóficas estranhas que corromperam suas percepções da mensagem espontânea do Novo Testamento. Segundo Cullmann, o impulso de Bultmann, principalmente ao fazer distinção entre os elementos essenciais e acidentais da mensagem do Novo Testamento, é arbitrário e ingênuo. O Novo Testamento, segundo ele, deve ser a chave para a compreensão de si mesmo.

METODOLOGIA ORTODOXA

Após as críticas a Barth e Bultmann, podemos concluir:

A teologia do NT de Cullmann é menos dependente do existencialismo e de outros pressupostos filosóficos, e mais dependente da exegese bíblica, submetendo suas interpretações ao contexto que lhe oferecia a própria Escritura, se opondo fortemente a muitas características radicais da crítica formal e da desmitologização.

Cullmann também enfatizou a importância da história para a compreensão adequada da Bíblia. Ressaltando a idéia central da história da salvação, como a atuação de Deus na história, comungando assim com a teologia ortodoxa.

POSTULADOS DA HISTÓRIA DA SALVAÇÃO CULLMIANA

1. O tempo, para Cullmann, é algo no qual Deus atua para realizar a salvação do homem em Cristo.

2. A revelação e a redenção divina estão baseadas em realidades históricas bem objetivas, e não em mitos levantados pela igreja, como afirma Bultmann.

3. O dado básico da religião cristã passa a ser a história santa e a Escritura passa a ser apenas uma constante desse dado definitivo, e não uma realidade em si mesma.

4. A ação central na história da salvação é a primeira vinda de Jesus Cristo como Salvador. Toda a história e todo o tempo, segundo Cullmann, são um drama mundial e Jesus é a figura principal neste drama.

5. As bênçãos da era vindoura começaram com a obra e o testemunho de Cristo, mas sua finalização está reservada para o tempo da segunda vinda, quando o Reino de Deus estará presente de modo pleno, em todo o seu poder e glória.

6. Quanto à revelação, Cullmann afirma que o interprete somente conhece a história quando se identifica com ela. Obviamente que essa é uma idéia neo-ortodoxa. A história, quando o interprete a conhece, passa a ser revelação, e o estudioso participa dessa história pela fé.

BREVE BIOGRAFIA DE OSCAR CULLMANN

Oscar Cullmann nasceu no ano de 1902 em Estrasburgo no leste da França na fronteira com a Alemanha, estudou teologia e filosofia clássica na própria Estrasburgo e Paris e, em 1924 colou o grau de bacharel em teologia, vindo a tornar-se em Paris instrutor de grego e latim na École de Batignolles neste mesmo ano.

No ano de 1930, foi nomeado, em sua cidade pátria, professor catedrático para o Novo Testamento e a história da Igreja Antiga (1930-1938).

Em 1938 por causa da sua fama como erudito do Novo Testamento e história da Igreja primitiva, foi convidado para lecionar em Basiléia na Suíça, passando a adotar a Suíça como sua pátria adotiva. Nesse período até 1972 desenvolveu muitos estudos e também fundou em Basle um centro de teologia ecumênica, onde promoveu encontros com teólogos católicos romanos e ortodoxos. Essa tendência ecumênica o fez um observador oficial do concílio Vaticano II (1962-1965). Sua morte se deu em 1998, aos 96 anos na cidade de Chamonix, França.